Decifrando a crise de 2008 – parte I. Sobre ética, mercados e subprimes.

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As raízes da crise do subprime podem ser encontradas na desaceleração do mercado imobiliário americano a partir de 2005 . Mas antes, é preciso clarificar as razões do forte crescimento e posterior queda deste mercado. Para tanto, convém observarmos a consistência da ‘crise do subprime’. Muito se fala a respeito, teorias estapafúrdias e falsas razões cercam a crise de 2008. Mas pouco se sabe sobre que ocorreu entre o verão de 2007 e setembro de 2008 nos Estados Unidos, data do anuncio da concordata do Lehman Brothers, à época um dos maiores bancos de investimentos do mundo.

O mercado imobiliário americano é o centro do problema por duas razões: (i) ocorreu neste mercado a crescente utilização dos produtos financeiros que viriam a desencadear os excessos que veremos a seguir e (ii) a queda deste mercado provocou uma reação em cadeia e uma forte redução na confiança dos investidores, levando a economia global a um problema generalizado de falta de disposição para investir.

Inflando bolhas.

Segundo a publicação Visão do Desenvolvimento, do BNDES, de 18 de janeiro de 2008 (artigo escrito pelo economista Ernani Teixeira Torrs Filho), entre 1997 e 2006 houve nos Estados Unidos uma alta considerável no mercado imobiliário, chegando a 85%, com pico em 2005, onde a valorização bate em 15% ao ano (dados da Standard & Poor’s, Índice Nacional de Preços de Imóveis Case-Schiller). Tamanha valorização foi sustentada por uma proporcional expansão do crédito imobiliário.

As hipotecas foram ‘facilitadas’ em demasia (razões a seguir), financiamentos foram aprovados para indivíduos com pouca ou nenhuma condição de honrar seus compromissos financeiros. Essa expansão foi permitida pela introdução no mercado imobiliário de certos ‘produtos’ financeiros que davam aos bancos a possibilidade de reorganizarem as dívidas dos tomadores de financiamentos e ‘revendê-las’ a investidores. Neste processo, grandes agências de rating avaliavam esses investimentos estruturados demaneira assaz positiva, disfarçando o alto risco dos papéiso, os famosos AAA. Este é um dos principais fatores para a eclosão da crise, a relação pouco ortodoxa entre bancos e agencias de classificação de risco.

 

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Mas detalhadamente: os indivíduos que desejavam financiar uma casa própria mas não tinham a menor possibilidade financeira para tal empresa – ou passado recente de inadimplência – os ‘ninja’ – no income, no job, no assets, como eram conhecidos entre os envolvidos no mercado – tiveram oportunidade única de obter a residência via financiamento facilitado.

Por parte dos bancos houve forte incentivo a tais espécies de financiamento, pois em seguida poderiam repassar aos investidores os produtos reestruturados. E para casos de inadimplência, as empresas financeiras securitizaram todo o processo, para não haver possibilidade de perdas. A participação em valores reais dos subprimes (cuja possibilidade de inadimplência era alta, porém talmbém era alta a remuneração do investimento) eleva-se rapidamente entre 2001 (8,6%) e 2006 (20,1%). Como se não bastasse o risco de não pagamento dos subprimes, o prazo para quitação da dívida era extremamente longo, normalmente 30 anos.

As dívidas eram estruturadas da seguinte forma: o processo se iniciava com a transferência de diferentes contratos de hipotecas para um único fundo de investimentos – o mortgage pool. Estes fundos eram separados em cotas (tranches) – AAA, AA, A, BBB, BB, B, toxic waste. Aqueles papéis abaixo do nível A eram redirecionados e passavam por nova reestruturação, sendo vendidos sob nova classificação de risco – AAA, AA, A, BBB, BB, B, toxic watse. A remuneração dos investimentos eram determinadas pela qualidade da avaliação de risco. Ou seja, quando maior o risco, maior a remuneração.

As tranches de avaliação média e baixa, traziam consigo outras dívidas em geral, financiamentos estudantis e  até dívidas de cartão de crédito,  para diluir ao máximo o risco das hipotecas individuais. Os toxic wastes da primeira e segunda reestruturação eram, por fim, direcionados a SIV’s –  Structured Investment Vehicles. Empresas criadas por bancos que atuavam com único propósito de emitir títulos de curto prazo, os commercial papers. Os bancos, a fim de garantir robustez das SIV’s, estendiam linhas de crédito especiais para potencias problemas de liquidez dessas empresas.

Na segunda parte, veremos como o bolha imobiliária torna-se insustentável, ao final de 2006.

(A seguir: Decifrando a crise de 2008 – parte II. TICKING TIME BOMB)

Investigação sobre as razões da atual inflação brasileira – parte II. A meta e a tolerância.

O ex-presidente do Banco Central do Brasil e um dos formuladores do Plano Real, Gustavo Franco, faz interessante analogia entre inflação e alcoolismo: Inflação é como alcoolismo, não tem cura, só controle. Alerta ainda sobre a insistência na dúvida que os atuais formuladores da política econômica brasileira tem em relação aos riscos em tratar com leniência a inflação crescente no país. E o faz com toda a razão, uma vez que está cada vez mais claro que o governo trata de estar dentro da meta, no limite – 6,5%, e não no centro razoável – 4,5%. Ao considerar como centro o limite máximo da meta, como alerta Franco, estamos muito próximos de 10%, o que é um consenso que daí por diante o gatilho  se solta e não se controla mais o processo inflacionário com as ferramentas usuais.

Países vizinhos passam, novamente em sua história, pelo mesmo processo. O descuido com o aumento generalizado de preços e o incentivo canhestro ao descrédito com alertas sobre os riscos de se atingir o gatilho levaram Venezuela, e mais recentemente a Argentina, a atingirem os temidos 10%. Resultado deste flerte com a espiral inflacionária está claro no Venezuela, onde hoje calcula-se inflação na casa dos 60%. Já no país vizinho ao sul não há dados claros, os institutos oficiais – controlados pelo governo – apontam inflação entre 10% e 13%, ao passo que institutos independentes apontam para a casa dos 30%. Entre um e outro índice, cabe o relato do jornalista Ariel Palácios a uma emissora de televisão brasileira nesta semana: Há alguns anos comprava o necessário para duas semanas no supermercado com 200 pesos. Hoje, os mesmos 200 pesos me servem para comprar pão e leite.

 

Gustavo Franco: "o Brasil é como um ex-alcoólatra se arriscando a beber uns drinks a mais"

Gustavo Franco: “O Brasil é como um ex-alcoólatra, que está arriscando a beber uns drinks a mais”

Deste lado da fronteira, entretanto, parecemos ignorar o risco iminente de se chegar a um patamar de descontrole inflacionário. Como sinal deste problema, convém observar a atual situação da política de juros no Banco Central do Brasil. O aumento na Selic já faz aniversário e a inflação não dá trégua. Sinal claro que somente a política de aumento os juros básicos da economia (e em ritmo lento) não será a única peça faltante no puzzle inflacionário. Mas este desencontro acaba por evidenciar mais uma face do processo: se o remédio for receitado com desconfiança, não pega. O discurso do governo de que a inflação está sempre dentro do controle, que não há nada com que se preocupar com a economia brasileira, causa descrédito não só no mercado, mas na sociedade em geral. Acaba por criar no inconsciente coletivo a memória inflacionária como mecanismo de defesa contra o pior dos impostos.

Depois de muito relutar em aplicar alguma ordem no aumento de preços, via Selic, o governo o faz a contra gosto – quase que duvidando da existência de real inflação. E assim aplicado o medicamento, a sociedade não lhe confere devido crédito, procura se defender como pode. No caso de quem tem algum negócio, trata de repassar toda a expectativa nos preços. No mercado de ações não é diferente, já está no preço. Há ainda a questão sazonal, como o Brasil é grande produtor de alimentos, o efeito clima respinga com alguma força ma inflação – mas longe de ser fator determinante.

Como o Brasil viveu relativamente recente experiência de alta inflação, a sociedade – principalmente a imprensa – não descuida. Assim que há piora, a alta de preços ocupa as manchetes dos jornais. O que é uma vitória, se a imprensa fosse qualquer coisa controlada, haveria desinformação – como é claro em nossos vizinhos latino-americanos.

O que fica, portanto é o problema da falta de gerência, digamos assim, da questão inflacionária. O que, sem embargo, é uma face da atual resistência da inflação no Brasil. Falta convicção para atacar o problema, independência do Banco Central para agir quando e com a intensidade necessária para debelar a ascensão generalizada de preços. Esse é um foco de inflação, ou melhor, de memória inflacionária. Algo psicológico que injeta na sociedade crença que o governo não fará, deliberadamente ou por incompetência, o seu papel de manter a saúde da moeda.

 

O valor dos impostos

A massa de tributos que o brasileiro paga anualmente é medida através de um aparelho curiosamente chamado de impostômetro. A ideia surgiu da Fiesp e se tornou bastante popular em São Paulo, onde está localizado em praça pública, mas há também o site (http://www.impostometro.com.br) que disponibiliza dados interessantes. Trata-se de um aparelho que mede em ‘tempo real’ a quantidade dos impostos que pagamos. 14/04/2014 chegamos aos R$500.000.000.000,00.

O Brasil, como país continental, naturalmente demanda que o Governo tenha grande fonte de recursos, para aplicar esses montante em investimentos infraestruturais e questões básicas de Estado – educação básica, defesa, saúde e conjunto de leis (segurança pública). O que salta aos olhos é a discrepância entre o que se paga – e o quanto se paga -, e o retorno que temos em serviços básicos públicos. Uma pessoa que hoje faz 72, atual expectativa de vida geral dos brasileiros, tendo trabalhado regularmente, terá pago 24 anos de sua vida produtiva em impostos. Mas será que todo o peso que o Governo impõe à sua população tem retorno crível? É justificável?

Uma vez que o Brasil tem uma das maiores cargas tributárias do planeta, qual é a razão de termos serviços tão precários e um discurso constante de falta de recursos por parte do Governo? Se o país – seus gestores administrativos – não consegue, mesmo com vultosos recursos, suprir as mais básicas necessidades gerais da população – educação básica, defesa, saúde e conjunto de leis (segurança pública) – é sensato ou razoável aumentar ainda mais os impostos?

Impostos no mundo

Impostos no mundo

Os recursos captados no Brasil tem os mais diversos fins. Quem dera fossem destinados aos seus objetivos básicos. Hoje há profusão de verbas do Estado para custeio. Temos 39 ministérios em 2014, em 2002 tínhamos 24. O atual valor gasto no custeio dos atuais 39 ministérios (tantos que nem cabem mais na Esplanada dos Ministérios) foi de R$54.800.000.000,00 em 2013. Mais que o dobro gasto com o programa social Bolsa Família em 2013, R$24.900.000.000,00. Ressalto apenas mais um dado curioso, o total de custeio da máquina pública em 2013 fica em astronômicos R$377.600.000.000,00. Com isso, insisto novamente na questão: vemos o retorno de todo esse gigantismo de nosso Estado em qualidade de serviços básicos?

É tão grande a desproporção que atualmente alguns ministérios estão alugando prédios para comportar o número crescente de ‘servidores’. Oscar Niemeyer, quando projetou as instalações da Esplanada dos Ministérios, fez a construção para 19 ministérios. Uma sobra em relação aos 15 mistérios nos Estados Unidos.  Apenas o Ministério da Cultura gastou em 2013 R$1.300.000,00 em aluguéis e salas para poder ‘funcionar’ – ou seja, além do edifício que comporta a pasta da cultura, o ministério teve todo este valor destinado a aluguéis.

O que sobra, por agora, é que muito do que se paga em impostos e tributos em geral não retorna em serviços básicos. Serve para bancar luxos e exageros do Governo, excessos e ‘aventuras’ de políticos indicados para administrar estatais – que tem como último objetivos dar algum retorno para o Tesouro. Além de financiar o BNDES, para que este banco dê enormes quantias, ou subsídios, como queira,  a empresas escolhidas, como o grupo ‘X’, do ilustre Eike Batista, entre outros absurdos. Portanto é claro, público e notório que o Governo tem inúmeras outras destinações aos recursos recolhidos dos brasileiros, que não os itens básicos como citado anteriormente.

Há enorme desperdício de tempo, energia e recursos públicos com aventuras que nada tem a ver com o papel de Estado, o papel mínimo de Estado. Não faz qualquer sentido o Estado se agigantar, uma vez que não consegue ser eficiente minimamente nos serviços mais básicos e fundamentais.

 

 

 

Investigação sobre as razões da atual inflação brasileira – parte I. A produtividade.

O Brasil passou por experiência única no tocante a inflação. Até 1994 acumulou dezesseis dígitos de aumento generalizado de preços em um período de 15 anos. Planos dos mais diversos surgiram para conter o dragão que se avizinhava da economia brasileira, a hiperinflação. Há quem sustente, porém, que o país sofreu de fato hiperinflação nos primeiros anos da década de 1990.

O que não faltou, entretanto, foram críticas ao plano de controle inflacionário – plano este que se utilizava de padrão bi-monetário e deu fim ao pesadelo inflacionário. Após tentativas fracassadas de toda sorte, enfim, foi relutantemente aceita a superação da teoria inercial da inflação (superação compreensão acurada do problema), base teórica para o heterodoxo Plano Cruzado. Segundo esta teoria, a inflação brasileira não teria causa fundamental, apenas tomava como base os índices passados, em um ciclo eternamente ascendente. Uma vez superada e agregada a ideia de segunda moeda indexada, a hipótese simplista da inflação inercial, o Brasil passa a atacar o problema de modo mais realista – e complexo. Combatendo as causas que fundamentavam o empobrecimento contínuo da moeda.

Feita esta brevíssima introdução, chegamos ao ponto onde já existem ferramentas contra a inflação. Uma delas, a mais famosa, talvez, é a elevação da taxa de juros. Também largamente criticada e, ainda assim, muito utilizada, é um método que já provou ser eficiente. Mas é de se questionar se tal meio cumpre seu papel para todos os cenários. O caráter da inflação brasileira no passado é ligeiramente diverso da elevação de preços que vemos hoje. Há novos focos de pressão inflacionária, o cenário pede abordagens além de simplesmente elevar a taxa básica.

O Banco Central está elevando os juros indefinidamente e se diz motivado a seguir esta trajetória até controlar a alta de preços. Mas, como foi sinalizado acima, está cada vez mais claro que sofremos de outras mazelas – para além daquelas já conhecidas por experiências de outrora. Portanto, esta série de conversas ocorrerá sempre buscando novos aspectos para entender este caráter diferenciado de inflação que vivemos hoje.

A questão da mão de obra, especializada ou não, na economia brasileira tem mostrado grande poder de impacto. Assim como tem se mostrado igualmente delicada. Vivemos uma situação de baixo desemprego – mesmo com toda a controvérsia em torno dos métodos para quantificar a parcela ociosa da População Economicamente Ativa -, o que leva a uma dificuldade particular no tocante a produção. Uma vez que o mercado de trabalho está ‘ajustado’, os salários tem uma tendência de crescimento. Por sua vez, os custos seguem a tendência que, no limite, rebate nos preços. Além desta lógica simples (trabalho-custo-preço), há também o problema da produtividade. Se a renda sobe acima da produtividade, temos um conta que não fecha. Em média, o trabalhador no Brasil tem produtividade baixíssima (quociente entre PIB e PEA), em relação a outros países mais e também menos desenvolvidos. Ocupamos atualmente a septuagésima quinta posição (19,764 US$/ano), atrás de países como Guatemala (21,180 US$/ano), Colômbia (23,208 US$/ano) e Peru (23,054 US$/ano). E muito atrás de Chile (35,579 US$/ano), Argentina (37,589 US$/ano) e Estados Unidos (105,969 US$/ano).

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Não há que subestimar, porém, a complexidade que o fator produtividade traz consigo. Como dez entre dez economistas diriam, a solução passa necessariamente por três pontos fundamentais, a saber: educação, educação educação. Ao passo que o mercado de trabalho vai aquecido, principalmente pela explosão – literalmente – do setor de serviços, outras áreas de igual importância permanecem relegadas aos problemas históricos do país, sem a devida atenção.

São duas questões que merecem aprofundadas reflexões – trabalho e produtividade – para melhor compreender o cenário que leva a atual inflação brasileira, resistente aos elevados juros vigentes em nossa economia hoje. Há diversas opiniões sobre as questões aqui levantadas. Segundo Marco Tulio Zanini, professor da Fundação Getulio Vargas,

 Esse indicador é a síntese da baixa qualificação do trabalhador brasileiro, dos gargalos estruturais e do baixo investimento. Também está refletido nesses números o modelo econômico do país, calcado na produção de commodities. Não investimos em produtos de maior valor agregado. Nessas condições, não há como crescer 4%, 4,5% de forma sustentada.

Já André Lara-Resende, precioso pensador da economia brasileira, tem opinião mais ampla sobre a questão da produtividade. Alega que o fator produção está intimamente ligado a condição de abertura econômica,

A política econômica no Brasil, sobretudo depois dos dois primeiros anos do primeiro governo Lula, parece estar pautada pelo nacional-desenvolvimentismo intervencionista. Formulado nos anos 1950, ele foi referência para a política econômica dos governos militares nos anos 1970. Com ênfase na industrialização autárquica, baseada no argumento da indústria nascente, sob liderança do Estado, esse tipo de política pode ter tido seu papel, mas é hoje profundamente anacrônica. As economias que superaram aquilo que os economistas chamam de “armadilha da renda média” e alcançaram as do Primeiro Mundo foram as que se abriram para o comércio internacional, se integraram num mundo globalizado, aumentaram a produtividade e se tornaram grandes exportadoras. Além disso, uma vez atingido um nível razoável de renda, a correlação entre bem-estar e consumo material se enfraquece. Outros fatores, como a qualidade de vida nas cidades, completamente desconsiderados pela política do governo, se tornam mais importantes.

A atual inflação brasileira sofre, portanto, reflexo – em medida incerta, por enquanto – da baixa produtividade de nossa economia, no tocante ao trabalho especialmente. Um sinal relativamente claro que a política de juros, e somente ela,  como vimos acima, não resolverá a questão inflacionária. Pode, sim, criar mecanismos de amortecimento, desaceleração na circulação de moeda. Mas não traz à luz alguns desajustes decisivos em nossa economia, como a questão dos crescentes custos na produção

 

O mérito na democracia brasileira

A jovem democracia brasileira carece de meritocracia. Percebe-se majoritariamente a falta de qualquer mérito ou reconhecimento na fisiologia de nossas instituições. Parece que nos habituamos com indicações políticas, e não técnicas, para ocupar cargos de maior importância em nosso sistema representativo. Qual é a dificuldade em agir de acordo com o mérito pessoal dos indivíduos? Não deveria ser um presuposto óbvio para o bom funcionamento deste sistema que já é por demais intrincado? Exemplos, sempre vem de cima e refletem-se através de todas as ramificações do poder, onde sempre é mais vantajoso agir na obscuridade, em detrimento da ética.  E é aí onde a sociedade deveria mais se fazer presente, exigindo um comportamento minimamente razoável.

Quem não se lembra do então candidato a presidência Luiz Inácio Lula da Silva que, antes das eleições gerais de 1994, disse a plenos pulmões que o Plano Real era mais um “estelionato eleitoral”?  Junto de seu partido, se postou contra, em todas as instâncias, a criação do novo plano que estabilizaria, após numerosos fracassos de tentativas heterodoxas, a economia brasileira. Plano este que devolveria valor a esta peça fundamental de indentidade nacional e do bom funcionamento da sociedade. O escritor Elias Canetti cita em trecho do livro Massa e Poder um interessante aspecto a respeito da desvalorização da moeda nacional, “um sabá de desvalorização no qual homens e unidade monetária confundem-se da maneira mais estranha. Um representa o outro; o homem sente-se tão mal quanto o dinheiro, que segue cada vez pior; juntos, todos se encontram à mercê desse dinheiro ruim e, juntos, sentem-se igualmente desprovidos de valor”.  É clara e notória a importância do processo de estabilização para o conjunto da sociedade. Desenvolvimento a base de inflação é descontrole, ou seja, ocorre devido a incompetência gerencial ou má fé.

8 anos após a infeliz declaração, Luiz Inácio Lula da Silva elege-se presidente e, não por acaso, os mercados no Brasil entram em pânico. Ninguém sabia ao certo quais seriam as atitudes tomadas pelo representante recém escolhido pela maioria popular. Conduzido por Fernando Henrique Cardoso, que deixaria em breve o cargo de Presidente da República, o trabalhista produz a famigerada Carta Aos Brasileiros, que nada mais é do que um documento atestando a continuidade da política econômica tomada nos últimos 8 anos – inclusive o presidente do Banco Central durante todo o governo Lula seria Henrique Meirelles, intusiasta da estabilidade e outrora Deputado Federal pelo PSDB de Goiás. Dito isso, quem se lembra do Governo trabalhista admitir de maneira clara e pública o enorme avanço que o Real trouxe não só a economia, mas a toda a sociedade, e que este, sim, foi um fator primordial para o crescimento econômico Brasileiro que se seguiu e garantiu condições para a criação, ou adaptação, melhor dizendo, de programas sociais que marcaram o periodo de Lula na presidência – a despeito das colocações contrárias do partido à época do anúncio da nova moeda? Ninguém, pois não houve declaração alguma, reconhecimento algum, mérito zero. Ao contrário, alegavam uma herança maldita herdada dos dois mandatos de Fernando Henrique. A estabilidade econômica e as condições para o crescimento são a herança maldita? Sejamos honestos, que é disso que necessitamos.

Ainda na década de 1990, as esquerdas gritavam contra as privatizações, contra a diminuição da máquina estatal, contra a redução de gastos. Agora vimos, entretanto, a presidente Dilma Rousseff tocar as maiores concessões em valores de nossa história, os aeroportos. O que houve com a verborragia estatizante? Muito provavelmente alguns técnicos do Governo abriram o jogo e, de uma vez por todas, esclareceram que privatizar setores é necessário, o Estado não tem condições financeiras nem competência para gerir tudo.

Então, podemos contar, enfim, com a compreensão do Estado brasileiro no tocante ao campo de atuação? Não, infelizmente. E temo dizer que a situação tende a agravar-se. Nesta última semana o Brasil foi pego de surpresa com os anúncios estapafúrdios que o Governo lançou em clara tentativa de mostrar serviço à sociedade que se movimenta insatisfeita. Pretende trazer milhares de médicos estrangeiros (principalmente de países alinhados ideologicamente) a fim de suprir o estado crítico da saúde pública brasileira nos rincões. Ora, então temos uma bela insfraestrutura para receber médicos e o que nos falta, portanto, são quadros para preencher tal vácuo? Risos? Além de largamente midiática, típico, a cena armada trará dificuldades sérias. Uma vez que não é só trazer estrangeiros para o país – e registro aqui que o Ministério da Saúde tenciona relaxar o exame de aptidão para os médicos de outros países, já que nações parceiras não tem obtido um bom resultado – cubanos: 89% de reprovação (fonte CBN) – é também acrescer em mais dois anos a formação de nossos médicos, seria 8 anos, portanto, e ainda obrigar todos a servir por mais dois anos na rede pública. Liberdade? Passou longe.

A conjuntura é curiosa, e arrisco dizer que se assemelha ao projeto de capitalismo de estado, praticado pela China – onde quando convém ao Governo central, a economia funciona em um regime capitalista aos moldes da Revolução Industrial, escravidão não é novidade aqui, mas quando o  capitalismo convém às pessoas, aumentando suas liberdades, principalmente de informação, lhes são sumariamente negadas as vantagens da economia de mercado. Digo que se assemelha pois, por mais que os trabalhistas forcem situações de inimaginável intervenção, somos um país plural. Nunca irão rebanhar a todos para seus projetos inusitados e idealistas.

Retornando ao título, onde há regime de mérito no Brasil de hoje? Não há reconhecimento, muito menos meritocracia. A “faxina” que a presidente realizou logo no início de seu mandato deu a muitos a impressão de intolerância com a escória. À época, dizia-se que ela era tão responsável quanto os próprios operários da corrupção, pois os esolheu a dedo. Agora a coisa piorou. Muitos daqueles que foram espurgados do Governo estão de volta, em bons e velhos cargos comissionados, os cargos de “confiança”. Levando uma fortuna de ordenado e empregando mais um ramos de incompetentes. Coisas assim impedem o progresso e a gerência da coisa pública. Não há desculpas para tanto. É o avanço da sociedade que está em jogo, é a vida e o bolso do cidadão comum que está sendo arbitrada.

Costumamos nos indentificar – vide história brasileira – com figuras boas, mensageiros da bondade. Ao invés de escolhermos aqueles que nos parecem competentes. Não precisamos de bondade. Precisamos de mérito e competência.

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